Terça – Feira,
O relógio no criado mudo marcava 01h35min.
À noite esta fria. Sinto um leve tremor por dentro,mas nada tem a ver com o inverno que se aproxima.
Ele esta ali.Deitado na cama de bruços e ronca.O Julio só roncava quando bebia.Percebi que havia passado do ponto quando senti a um metro de distancia o forte hálito de álcool.Ele tentara um truque velho pra disfarçar:bala de menta.
Mas uma mulher na minha idade sabe de cor e salteado,esses truques.
Juro que não entendi o por que de ele querer disfarçar algo tão evidente.Nunca me importei que ele bebesse.
Um homem tem de saber e respeitar seus limites.Uma única vez na vida passei do ponto,e foi na minha adolescência.Tomei um porre e esbravejei contra o mundo por duas horas,ate desabar e acordar no outro dia as cinco da tarde.Um vexame.Todos comentaram meu feito “alcoolistico” por semanas.Mas na semana seguinte uma outra menina fez o mesmo e todos me esqueceram.
Nunca fui a garota mais popular.Nunca quis ser.Nem fiz por onde.
Sempre fui apagadinha.A nerd (antigamente este termo não era usado).Me orgulhava disso.Afinal de contas tinha de fazer jus ao dinheiro que meus pais investiam em mim.A única forma de se investir nos filhos é na educação deles.E meus pais fizeram isso.E deu certo.Me formei em advocacia.E no tempo em que exerci a profissão fui bem sucedida.Só deixei de advogar quando me casei e dois meses depois descobri minha gravidez.E lá se vão oito anos longe dos tribunais.Decidi dedicar meu tempo,integral,a família.
Isso é historia pra um outro post.
Pego a maleta do Julio e abro.Pego seu laptop,e tento ligar.A luz pisca e apaga por duas vezes.Na certa esta sem bateria.Ele o usa o dia todo.Remexo a maleta e não encontro o carregador.Me levanto vou até o quarto do Pedro,e abro a segunda gaveta de seu guarda roupas.Ele guarda ali o carregador de seu laptop.Tomo ele nas mãos.
Ajeito o cobertor sobre ele e o beijo no rosto.
Fecho a porta.
Conecto os fios e ligo o carregador na tomada.A luz se acende e ele Liga. Na tela inicial uma foto de nos três juntos, na casa de praia dos meus pais em Búzios. O retrato da família perfeita. Só em fotografias mesmo.
Abro o Web browser.Acesso no navegar o site de uma conta de e-mail.Seu endereço esta salvo.Só tenho de descobrir sua senha.O que neste momento me parece impossível.Quando pensamos em uma senha seja pro que for,pensamos em algo obvio.Que possamos lembrar com facilidade.Minhas duas contas de banco tem a mesma senha:minha data de nascimento.É o Maximo que conseguiria me lembrar com facilidade.
Tentei sua data de nascimento,o numero de seus dois celulares,a senha do banco que compartilhamos,e nada.Sempre acesso negado.
As desconfianças sobre uma possível traição do Julio,começou por seus constantes atrasos em dias específicos da semana.
Uma falta de interesse sexual repentino e sem propósito,afinal sempre nós demos muito bem na cama,e um maldito perfume que impregnou na roupa e na pele dele,nos dias em que chegava tarde em casa,alegando trabalho extra ou reuniões extraordinárias.
Se não fosse aquele maldito perfume almiscarado,talvez nunca tivesse desconfiado de nada.Julio sempre teve um poder de convencimento incrível.Se quisesse me fazer acreditar em sua fidelidade,mesmo tendo um caso com outra mulher,não duvidem,eu acreditaria.Mesmo tendo tudo me levando a certeza de um caso dele.
Ele começou a se mexer muito na cama,fiquei temerosa.Se acordasse e me flagrasse mexendo no seu laptop,explodiria.
Me voltei para tela a minha frente e jurei tentar uma ultima vez.
Decidi colocar a data de nascimento do nosso filho.
Lembro de uma vez ele ter comentado que aquela data era a que mais o havia marcado.Por diversos motivos.
Naquele mesmo dia ele fora contratado pela empresa em que atua ate hoje;era a data de morte de seu avô,Belizário,um homem que ele admirava muito,até mais que seu próprio pai.E agora,aquela data também era o nascimento de seu primeiro filho.
Digitei o dia,mês e ano do nascimento do Pedro:12/04/2003 e estava feito.Senha aceita e uma caixa de e-mails a minha frente.Quase gritei pele feito.
Estava diante De uma mina de ouro. Era ali que encontraria algum rastro, se houvesse, para dar razão as minhas desconfianças. Fucei tudo, caixa de entrada, saída, lixo eletrônico, spam e nada. Já era 02h36min da manha e nenhum progresso em minhas investigações.
Em uma conversa há meses atrás, num final de semana que passamos na casa de um casal de amigos, em Florianópolis, estávamos discutindo a respeito de todas as modernidades da vida atual e dos benefícios e contras. Sempre fui alheia a meio “burra” pra Internet, meios rápidos de comunicação e afins. Em um momento da conversa, o Julio disse que eu mal sabia entrar em uma conta de e-mail, que ele tentava há meses me ensinar a criar uma e todas as tentativas foram frustradas.
Depois de revirar camisas, calças e fuçar até na sua carteira, sem encontrar nada, nenhuma pista, bilhete ou cartão de motel, nem um telefone diferente em sua lista de contatos do celular. Eu me lembrei desta conversa e me atinei.O computador seria o único lugar onde eu jamais desconfiaria para encontrar provas contra o Julio.Ele fora esperto.Mas eu fui ainda mais.
Já estava dando minha busca por encerrada,me achando uma tola,quando me atentei para uma pasta no fim da coluna,que era nomeada por duas iniciais:A O.